O controle emocional do senador Flávio Bolsonaro (PL) parece ter se perdido de vez e o parlamentar agora recorre à velha tática da cortina de fumaça messiânica para tentar estancar a sangria de sua credibilidade. Visivelmente desestabilizado após o escândalo que revelou suas intimidades mais escusas, leia-se pedidos de cifras milionárias ao banqueiro fraudador Daniel Vorcaro, o filho “zero um” do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) adotou um tom de palanque neste sábado (16), em Sorocaba (SP), para disparar ataques pesados e apelar para ofanatismo religioso.
Durante um ato político organizado pelo deputado federal Guilherme Derrite (PP-SP), Flávio tentou posar de vítima e bradou que a disputa presidencial de outubro será uma batalha de “Deus contra o diabo”, claramente fazendo uma alusão ao seu adversário, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a quem o clã tenta carimbar uma pecha “satânica”.
“A gente faz o certo, e eles querem transformar no errado. Eles fazem o errado e fazem vocês acreditarem que é certo… Ergam a cabeça, estufem o peito, porque a força está do nosso lado, a verdade está do nosso lado. Lula disse há pouco tempo que ia fazer o diabo para conseguir se reeleger. Ele está com o diabo e nós estamos com Deus”, esbravejou o senador.
A fala, contudo, carece de qualquer compromisso com a verdade: Lula jamais deu tal declaração. A frase sobre “fazer o diabo” na eleição foi dita, na realidade, pela então presidente Dilma Rousseff, lá no longínquo ano de 2013, e evidentemente sem nenhuma conotação religiosa. Mas para quem tenta se salvar do naufrágio político, os fatos são mero detalhe.
Flávio ainda adotou o tom “coitadinho”para se desvencilhar do escândalo que aparentemente naufragou com sua candidatura.
“Eu amanheci com uma passagem na cabeça: ‘aquele que na dificuldade é fraco é realmente fraco’, e eles me subestimaram mais uma vez, achando que vão me calar, me intimidar, esquecendo que aqui tem sangue Bolsonaro, eu não vou desistir do Brasil”, disse.
Áudio dos R$ 61 milhões e quebra de confiança
O desespero de Flávio tem nome, sobrenome e CPF. Dias atrás, o site The Intercept Brasil balançou as estruturas da extrema direita ao revelar áudios gravados em novembro de 2025. Neles, o filho de Jair Bolsonaro aparece cobrando aportes financeiros de Daniel Vorcaro, então dono do Banco Master.
O banqueiro chegou a injetar a bagatela de R$ 61 milhões para financiar o filme “Dark Horse” (“Azarão”), uma produção chapa-branca feita para homenagear o ex-presidente Jair Bolsonaro. Confrontado com o vazamento, Flávio deu uma desculpa que não colou:alegou que negou conhecer o banqueiro criminoso devido a uma suposta “cláusula de confidencialidade” no contrato da produção.
O problema é que o senador vinha jurando publicamente e em conversas públicas e reservadas com lideranças da direita que sequer tinha relação com o dono do Banco Master. O flagrante de mentira gerou um clima de profunda apreensão e uma sensação de quebra de confiança irreparável entre seus próprios aliados de farda e de partido. Nos bastidores de Brasília, o pânico é generalizado diante do temor de que novos áudios e diálogos ainda mais comprometedores venham à tona.
Empate no Datafolha é “foto do passado”
Para tentar manter a pose de líder viável, Flávio e seus interlocutores tentaram se agarrar à pesquisa Datafolha divulgada também neste sábado (16). O levantamento mostra o senador e o presidente Lula empatados tecnicamente com 45% das intenções de voto em um eventual segundo turno.
No entanto, o número serve apenas como consolo psicológico para a militância. As 2.004 entrevistas foram coletadas na terça (12) e na quarta-feira (13), ou seja, antes que o eleitorado tomasse dimensão do tamanho do escândalo envolvendo os milhões de Vorcaro. A pesquisa retrata uma realidade que já não existe; a ressaca ética do eleitorado ainda está por vir.